18 de fev de 2010

histórias de canções


Um dos últimos livros que li foi "Chico Buarque" que inaugurou uma série chamada Histórias de Canções. Nele Wagner Homem, amigo do compositor desde 1989, conta diversas histórias ligadas a muitas canções de Chico. Ao falar das canções e suas histórias vai nos mostrando o cenário do país na época de cada uma delas, é também uma lição de História. Ele começa com a música "Tem Mais Samba (1964) que Chico considera o marco zero de sua carreira profissional e nos traz até 2009 com o lançamento do livro "Leite Derramado".
É uma leitura gostosa e mesmo eu que sou super fã, não conhecia muitas das canções e foi muito interessante conhecer as histórias por trás de cada uma delas, saber que muita coisa que ouvi ao longo dos anos não são verdadeiras e conhecer mais do Chico. Essa leitura me levou a uma viagem pelo tempo visto que vivi toda essa época e acompanhei muitos dos acontecimentos.
No livro houve uma parte que me tocou em especial. Na parte onde Wagner escreve sobre A Banda, música que muitos acham boba, mas de um grande significado e que fez um sucesso enorme, não só aqui no Brasil, ele transcreve uma crônica escrita por Carlos Drummond de Andrade e que me emocinou muito. Li e reli diversas vezes em momentos diferentes e refleti muito. Numa dessas vezes, eu li em voz alta para minha prima e minha sobrinha e as lágrimas vieram. Senti forte o significado e a emoção das palavras de Drummond. Pensar naquela época e ver o dia de hoje no nosso país é algo mesmo para se refletir. Suas palavras são bem atuais embora épocas tão diferentes (?)

Deixo aqui a crônica e espero que você também goste.

"O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.
A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e a banda vem trazendo. Chico Buarque de Holanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promesas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, a falta de ar.
A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a ideia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.
Meu partido está tomado. Não da Arena nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.
Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floreçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrangem terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro... todos os que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa de de musicalizar a alma da gente."

Que venha uma nova banda! E se você quiser ler mais sobre o livro é só clicar : Chico Buarque - Histórias de Canções

9 comentários:

  1. Parece um livro bem interessante...vou espiar.

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  2. "Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais."

    É isso que falta: amor.
    Ah, Lucy, emocionante!
    Adorei!

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  3. Já entrou pra minha lista! Adoro o Chico compositor, não o petista nem o escritor de livros...mas ele,como ninguém sabe descrever a alma de uma mulher.
    Beijos.

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  4. Oi amiga, parece um livro bem legal, meu pai gostava muito dele. vou ver se a minha mae traz pra mim, obrigada pela dica.
    Querida, saudades dos seus trabalhos, tem andado muito ocupada ne? e o calor, parece que melhorou um pouquinho, mas minha mae esta quase tendo um piripaque com as contas de agua e luz......mas fazer o que, ne mesmo?....rs.
    Beijos e um otimo fds pra vc!!!!
    Soraia Melo

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  5. Que delícia! Amei a sugestão e as sempre sábias palavras desse lindo Carlos!
    Beijos e mais beijos
    Karina

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  6. Luci, que coisa arrepiante! Adoro Chico Buarque e o considero um dos homens mais inteligentes de que tive conhecimento. As letras de suas músicas conseguem transmitir uma infinidade de sentimentos e mensagens em poucas e poéticas linhas.
    Somente ele poderia escrever uma música inteira com todas as últimas estrofes apenas em proparoxítonas, e ainda conseguir transmitir em poesia o angustiante dia a dia de um simples trabalhador, seu trágico fim e ainda fazer uma crítica social (como faz em Construção). Somente ele.
    Além de que, o homem é lindo, hein?!

    Bjs, Elaine

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  7. Oi Luci!
    que lindo o texto!
    Gosto muito do Chico também, e li Leite Derramado e Budapeste, e um outro muito legal é Tantas Palavras de Humberto Werneck, com histórias sobre as músicas e também as letras, é imperdível. O Edno me deu de presente de aniversário há uns anos e posso te garantir que foi um dos melhores presentes que ele me deu... hehehe aliás, no Natal um pouco antes do meu aniversário daquele ano, ele me presenteou com a coleção de DVDs do Chico, uma série especial que foi ao ar na Band (se não me engano) nem preciso dizer que amei amei amei... Mas esse que vc mostrou aqui ainda está na minha listinha de "eu quero" junto com os outros livros do Chico... tomara que marido leia isto! hehehehe
    beijinho, Luci e parabéns pelo post!
    Josi

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  8. A minha 1ªvisita.

    Gostei do seu blog.

    beijocas.

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