7 de out de 2010

continuando....

Não sei se vocês lembram, mas uma vez eu comentei aqui no blog, que determinadas coisas que são elogiadas não deveria ser assim, deveriam ser atitudes normais. Assim eu e meu irmão sentimos  quando as pessoas elogiavam o fato de ter cuidado de nossos pais. Isso deveria ser o normal, não é mesmo? Mas enfim... Porém deixa eu falar uma coisa: não é fácil, não! Por mais amor e dedicação é uma situação muito difícil e estressante e tanto é verdade que existe grupos de ajuda para tratadores de diversas doenças, como é o caso do Parkinson e Alzeimer. Muitas vezes os tratadores podem até adoecer.
Ontem recebi alguns emails onde amigas falaram de situações assim que estão passando, então decidi falar um pouco desse outro lado.A primeira coisa a lembrar é que somos humanos e temos limites e temos sentimentos. Quantas vezes cheguei em casa e encontrei meu irmão travando batalhas com mamãe, tipo querer dar os remédios e ela de boca trancada se recusando a tomá-los. Eu era a pessoa que ela obedecia mais e eu chegava perto, olhava bem nos olhos dela e falava firme e com cara séria: abre a boca agora para tomar os comprimidos, e ela abria... Quantas vezes estava no banheiro para trocar a roupa dela para dormir e ela não deixava, não ficava quieta e eu a deixei lá sozinha, fui para meu quarto, contei até 10 antes de voltar e continuar.Isso depois de ter trabalhado o dia todo e chegar em casa querendo poder só tomar um banho, jantar e dormir. Malcriação? Nossa, ficou malcriada que só, rebelde, até palavrão falou algumas vezes, coisa que nunca havia feito. Lembro que uma vez, a pessoa que cuidava dela e da casa enquanto eu trabalhava, me contou que ela a chamou de filha da puta, mas nem foi fazendo queixa não. Cheguei perto da mamãe e dei uma bronca :" A senhora nunca falou palavrão e agora xinga uma mãe de 4 filhos? que isso? me ensinou que era falta de respeito. Vai lá agora e pede desculpas" E ela foi, pediu desculpas e abraçou e beijou a Tania. É, papéis trocados. Eu era a mãe e ela a filha. Então, não é fácil não. Perdemos a paciência, temos aqueles momentos que dá vontade de sumir e não voltar mais. Ninguém passa impune por essas situações. Nunca nos preparamos para isso. Ainda mais que as irmãs delas viveram muito mais que ela e ela só tinha 70 anos, 22 anos a menos que a irmã que ainda está viva. No último ano eu tinha gente me ajudando inclusive no final de semana, pois com o passar do tempo só vai piorando tudo, aumentando o trabalho e o estresse.
Sou uma pessoa que tem muita fé em Deus. Acredito no livre arbítrio, acredito que Deus pode evitar que qualquer coisa aconteça. Mas existem os mistérios e nem sempre é fácil. Por que isso? Por que Deus permite que isso aconteça? Muitas vezes briguei com Ele. "Por que o Senhor não a leva logo e lhe dá o descanso?" "Por que permitiu que isso acontecesse a ela que sempre batalhou tanto?" Eram muitas perguntas. Mas eu sei que Ele me deu forças para passar por tudo, para fazer as coisas que nunca pensei em fazer. Sei que tudo poderia ser muito pior, sempre pode. Sei que pude dar a eles tudo que precisavam, remédios, plano de saúde, boa alimentação, alguém para ajudar... Somos humanos, não tem jeito! Temos que aceitar nossa limitação, temos que nos perdoar, não podemos acumular culpas, não somos super-heróis. Tudo isso atrapalha e muito nossa vida, a minha parou. Meu irmão me dizia que sabia que era mais difícil para mim que para ele, pois ele vinha aqui em casa e ajudava, mas depois ía para casa dele e eu ficava aqui vivendo isso todo o tempo.
Ontem eu disse que contaria porque o hospital ligou para mim sem ter meu número. Quando meu irmão preencheu a ficha da mamãe só colocou o fone dele, para que qualquer coisa ligassem para ele e não para mim. Porém, enquanto mamãe estava na emergência, meu pai estava na UTI do mesmo hospital havia 10 dias. Ele teve o sexto derrame, porém broncoaspirou e teve que ser colocado em coma induzido. Ele se chamava Sebastião e ela Sebastiana. Então devem ter pego a fica errada e na ficha dele tinha meu número. Papai ficou internado em UTI durante dois meses. Mamãe faleceu no dia 10 de julho e ele no dia 29 de agosto.
Mas pensou que foi só isso? Não, não... Meu irmão teve um problema sério de coluna e ficou 3 anos sem trabalhar. Veja só, justo os 3 anos do problema maior da mamãe e pode me ajudar muito. Coincidência? Prá mim não. Ele tratou seu problema no Hospital Sara em Brasília. Quando mamãe faleceu ele estava havia alguns meses esperando ser chamado pelo Hospital para ser operado. Pois foi o que aconteceu. Logo após mamãe falecer ele foi chamado e teve que ir para Brasília e minha cunhada foi junto. Assim, já que ele não estava mais aqui, eu que tinha todos os dias que ir ao Hospital ver papai. Para encurtar a história... Meu irmão foi operado na segunda dia 28. Os médicos tiraram um pedaço do osso da bacia para substituir o disco entre duas vértebras. Foi uma cirurgia longa e só Deus sabe o que passei até ter notícias. Só me restava ele e Deus não podia permitir que nada lhe acontecesse. Papai morreu no dia seguinte. E aí a vida me deu outra lição.
Já contei aqui que eu e meu pai não nos dávamos bem e eu muitas vezes falei que quando ele morresse eu não iria no enterro porque seria meu descanso. Mas aí... Mamãe tinha falecido, irmão operado em Brasília... E quem teve que fazer tudinho? Eu! Deus não é fácil não!!!
Graças a Deus a cirurgia foi um sucesso e irmão ficou novinho em folha.

irmão poucos dias após a cirurgia

Quando ele foi para Brasília me pediu que se algo acontecesse não escondesse dele. E assim o fiz. Ele só me pediu que esperasse ele voltar para pegarmos as cinzas do papai e jogarmos no mesmo lugar que jogamos as da mamãe. E assim eu fiz...

Já com o post de ontem vi que toquei algumas pessoas que me escreveram e foi bom trocar experiências. Não passamos nada à toa. Espero que o de hoje também possa ajudar. Muito obrigada pelas pessoas que deixaram carinho nos comentários do post anterior, obrigada mesmo.

beijos e ótimo dia!!!

4 comentários:

  1. Nossa que história..... me lembrou minha tia-avó que cuidava do marido com Alzheimer e dizia sempre: 'Que Deus o leve primeiro, porque ninguém vai cuidar dele como eu'. Ela morreu numa segunda-feira de manhã.... ele morreu à tarde.... e foram enterrados juntos.
    bjs
    Sônia

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  2. É menina... As coisas acontecem de uma forma incrível mesmo.
    Existe um ditado que diz:
    Você pode lutar para sair do seu caminho, mas sentirá a mão de Deus te pegando pelo cangote e te colocando de volta onde deveria estar...rs

    bj

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  3. Luci,

    Obrigada por dividir coisas tão delicadas, ficarei matutando em suas palavras.

    Que bom que seu irmão é companheiro, graças a Deus.

    Beijo,

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  4. Olá, Luci!

    Olha, mesmo não tendo ainda me envolvido diretamente com cuidados intensivos para alguém, compreendo perfeitamente seu ponto de vista.

    Todos somos seres humanos e, portanto, cheios de limitações. Por maior que seja sua força e seu carinho, há um momento em que o desgaste fala mais alto. Cuidar de pessoas doentes provoca um tremendo esgotamento físico e mental, não há a menor dúvida.

    Penso, inclusive, que certos casos exigem cuidados profissionais, como quem sofre de Alzheimer, por exemplo. Em estágios avançados dessa doença é praticamente impossível assegurar uma boa qualidade de vida para o doente em casa. Uma série de fatores influenciam nisso, inclusive a questão da segurança. Sei disso porque vi de perto o caso de um tio, homem alto e forte, que já bem afetado pela doença, dava um baile em todo mundo por ser extremamente agressivo. Não é nada fácil mesmo.

    Muito sensível e sincero seu texto.

    Beijoca!

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