6 de out de 2010

pior fase da minha vida



Falar de mim estava difícil, não sei bem o porquê, mas sabia que um dia aconteceria, de forma natural. Da mesma forma que um dia escrevi aqui sobre minha fibromialgia e foi útil para algumas pessoas, talvez essa minha história também ajude.
Ontem quando escrevi sobre o futuro ser uma caixinha de surpresas, que nunca sabemos o que pode nos acontecer, me lembrei muito de minha mãe. Diversas vezes escrevi aqui sobre ter tido um período muito difícil na minha vida, mas não dizia o que havia de fato acontecido. Algumas pessoas me perguntavam por email e eu contava, mas me sentia em falta aqui. provavelmente eu não estava preparada emocionalmente para expor assim   e também escrever com alguns detalhes. 
Minha mãe foi uma das pessoas mais fortes e dinâmicas que conheci. Uma batalhadora, uma pessoa com sede de vida e de conhecimento. Se cuidava constantemente. Sempre estava lendo algum livro,no mínimo 1 por semana, lia jornal todos os dias, fazia palavras cruzadas todos os dias, adorava assistir documentários. Era costureira e fazia peças lindas e trabalhosas. Pegava modelos que nem molde tinha e ficava ali debruçada estudando o modelo até descobrir como fazer cada detalhe e fazia seus moldes. Enfim, exercitava seu cérebro constantemente. Tinha uma cultura que poucas pessoas tinham, sabia conversar sobre tudo.

Houve um momento das nossas vidas que descobrimos que mamãe tinha esquisofrenia, foi numa crise. Mamãe ouvia vozes, era uma situação verdadeira para ela, onde era ameaçada e por conta disso cheguei a mudar de apartamento, pois para mim era verdadeiro, nunca duvidei de minha mãe. Passou um tempo e retornou e foi aí que descobrimos isso. Minha mãe havia perdido dois irmãos em pouco tempo e estava indo a um médico que a estava medicando para depressão. Com nossa descoberta vimos que mamãe estava tomando um remédio que poderia até levá-la ao suicídio. E o pior, o médico sabia o que estava acontecendo e disse a ela para não contar para ninguém o que estava acontecendo com ela e por isso só uma grande crise, onde ela não aguentou mais guardar foi que descobrimos. Foram 2 semanas para tirar o remédio antigo e entrar com um novo, que custa menos de R$10,00 e que a colocou na linha novamente. Durante essas duas semanas minha vida virou de cabeça prá baixo, e um exemplo era ela ligar pro meu trabalho trocentas vezes e sempre com medo de algo. Uma das coisas que ela ouvia era conversas de vizinhos dizendo que ía nos expulsar do prédio, falando mal dela... ou o vizinho debaixo reclamando das plantas da nossa janela, dizendo que ía subri no nosso apartamento e jogar tudo fora... ou vizinhos do outro prédio debochando dela como se pudessem ver tudo que ela fazia dentro de casa. Com o novo remédio foi como se desligasse um interruptor e ela voltou ao normal, porém eu precisava estar sempre atenta com alguma nova conversa e muitas vezes tivemos que ajustar o remédio.
Quando passamos por isso, eu e meu irmão conversamos sobre quantas pessoas podem ter esse problema e a famíla não ver que é doença e que um remdinho simples e barato pode acabar com todo o problema. Toda essa história ficou só entre nossa família,. Eu não queria que os outros soubessem para não perder o respeito a ela.

Bem, contei para vocês de como ela ativa. Ela na realidade fazia tudo que hoje os especialistas nos mandam fazer para evitarmos doenças. Mantinha seu cérebro sempre ativo. Ela lia no mínimo 4 livros por mes, imaginem!  Mas um dia surgiu o Mal de Parkinson. Muita gente associa a doença só ao tremor, mas ela não é só isso, ela pode atingir o corpo e a mente de diversas formas e na minha mãe veio o tremor, nas mãos e até no queixo e atingiu sua massa muscular. Vinte por cento das pessoas que têm parkinson tem também demência parkinson, que é igual ao mal de alzeimer, e minha mãe estava entre os 20%.
Perdi minha mãe em vida. Sua vida foi me escapando entre os dedos. Perdemos nossa melhor amiga, com quem conversávamos tudo, eu e meu irmão. Ganhei uma filha. Cuidar dela foi bem difícil para mim, o primeiro banho, levá-la ao banheiro, depois as fraldas. Cada etapa nova doía mais e mais. Porém o que mais doía era vê-la assim, não merecia isso depois de toda a vida que teve, de toda sua luta. Aí vivi algo que nunca pensei... pedia a Deus para levar a pessoa que eu mais amava. Foram 3 anos assim. Muitas coisas aconteceram, acho que daria um livro se eu fosse contar tudo. 
Como falei, o parkinson atingiu sua massa muscular e ela foi perdendo a massa. Chegou um ponto que o médico disse que o organismo não absorvia mais o alimento ingerido e ela se alimentava muito bem. Ela chegou a tomar injeções de anabolizantes e ao invés de ganhar massa ela perdia. Morreu com 30 quilos.
Eu tinha muito medo de levá-la ao hospital porque o Jair, aquele nosso médico há 25 anos, dizia que se ela entrasse, dificilmente sairia. Porém numa trade de domingo ela engasgou (tinha um pigarro que mostrava ter uma gosma constante na garganta) e parou de respirar. Graças a Deus meu irmão estava aqui e conseguiu fazer ela respirar novamente. Porém quando ela falava, aquela gosma fazia com que sua voz saisse estranha e eu falei com irmão para a levarmos ao hospital. Foi tirada chapa do pulmão e deu limpo. Porém apesar de todo nosso cuidado, mamãe estava com escara no final da coluna. A carne começou a apodrecer em volta, uma vez e tivemos que levar ao hospital para deblidar (cortar aquela carne). Nessa ida, a médica disse que precisava deblidar novamente, mas que não havia médico e pediu que a levássemos no dia seguinte para isso. Como era muito difícil tirá-la de casa decidimos deixá-la internada. Eu havia saído de casa com ela no colo, pois meu irmão, com problema de coluna nãopodia pegá-la. Meu irmão se surpreendeu que eu a deixasse ficar, pois sabia do meu medo e eu disse a ele que não sabia porque mas que estava sentindo uma paz muito grande no coração. Eu ficaria com ela, já era quase meia-noite quando subimos com ela para o quarto, mas meu irmão me convenceu a vir em casa buscar coisas para ela e que no dia seguinte a passaríamos para um quaro particular e eu ficaria com ela. 
Pouco tempo depois de eu estar em casa me ligaram dizendo que ela estava tendo uma parada cardíaca e eu soube que ela havia ido... (amanhã conto porque eles ligaram para mim embora não tivessem meu número). Liguei para meu irmão e fomos para lá. A vesti toda de cor de rosa, que era sua cor preferida, passei baton, porque ela não ía nem no corredor sem baton, mesmo depois de doente e entre suas mãos coloquei um tercinho com uma medalhinha de Santa Terezinha de quem ela era devota. Eu e irmão demos as mãos e rezamos. No final eu disse: missão cumprida.  Sim, foi esse sentimento que tomou conta de mim, sabia que havia feito tudo que podia. Embora muitas pessoas me dissessem que eu devia colocá-la numa casa de saúde, cuidei dela. Fiz a opção e abri mão de tudo para cuidar dela e faria tudo novamente. Naquele momento tendo-a morta na minha frente, o sentimento de que ela finalmente descansara e que não ía mais sofrer era maior do que o sentimento de perdê-la.
Em julho fez 4 anos que ela se foi... a saudade é grande e doída até hoje. Estar aqui escrevendo tudo isso faz o coração doer, um nó na garganta e as lágrimas rolam sem parar. Ela tinha apenas 72 anos quando se foi e teria completado 76 no último dia 30 de setembro. Vou colocar foto para vocês terem uma idéia maior, porém só vou deixá-las por pouco tempo.(já foram retiradas)


Esse lugar é no Mirante do Leblon-RJ, onde jogamos suas cinzas.
Ela nasceu para ser livre.

Desculpem se houver erros de digitação, mas não vou reler o texto.

beijos e um ótimo e saudável dia

saúde é nosso maior tesouro.









13 comentários:

  1. Que triste tudo isso e tambe´m estou com esse problema com nossa mãe. Estamos perdendo a cada dia um pouco mais dela...Triste, triste...Até qundo? É de repensar essa tal de longevidade.

    Acho que deveríamos ficar aqui, ENQUANTO pudessemos ter dignidade e independência.

    É o que peço pra mim sempre! Estar aquim, SEM ESTAR é triste.beijos,chica

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  2. Fiquei com um nó na garganta enqto lia seu texto Luci com os olhos em lágrimas, me emocionei e muito, tenho minha mão com 74 anos e gozando de uma excelente saúde, peço a Deus todos os dias por ela.

    O que falar de vc: uma pessoa maravilhosa, cuidou e muito bem de sua mãe até os últimos momento dela na terra, isso não tem preço.
    Que essa história sua de vida sirva de exemplos para muitos filhos que preferem internar num asilo, casa de saúde do que cuidar.
    Vc e seu irmão saõ exemplo de amor, carinho, ternura, dedicação para a pessoa que os colocou na vida.

    Fiquem com Deus.

    Obrigada pela sua companhia.

    beijooo.

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  3. Sim, você e seu irmão cumpriram a missão. É bom compartilhar, sabe, obrigada! Admiro você ainda mais.
    Beijos na alma!

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  4. Ai, Luci, que nó na garganta...

    Mas vc me fez lembrar de que devemos fazer tudo o que podemos fazer por alguém enquanto ainda temos as pessoas por perto. Amanhã pode ser tarde demais. Devemos amar hoje.

    Obrigada por toda a sinceridade que trouxe mais luz para meu dia.

    Abraços, força, sempre.

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  5. Amiga!
    Eu sei o que é perder uma mãe e em tudo o que isso implica (perder um pedaço de você) estou lendo e chorando, eu te admiro ainda mais por tudo isso.
    E você é ela escrita, não só fisicamente pelo que você contou.
    Eu tenho orgulho de ter você entre meus amigos, e obrigada por dividir esse momento em seu blog.
    Beijo

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  6. É Luci, a vida é assim.
    Desejar a morte de algum ente querido, doente, e ao mesmo tempo desejar tê-lo vivo junto com a gente, é um conflito que entendo muito bem. Um dia, se tiver coragem, relembrarei num post o drama que passei com meus avós (eles me criaram desde que nasci, nunca morei com meus pais). Também daria um livro!!!

    Meus pais verdadeiros estão hoje na faixa dos 80 e poucos, em ótima forma, graças a Deus, mas minha sogra 87 está com alzheimer, aqui comigo. É uma barra.

    Assim como a Chica, questiono a tal de longevidade. Mas, segundo aprendi, "não há mal sem causa" e então vamos seguindo.

    Esse sentimendo de dever cumprido, de alívio, eu também senti por ocasião do óbito dos meus avós. Mas tempos depois, esse mesmo sentimento deu lugar a outro muito dolorido: a saudade. É amiga, a saudade dói. E aviso, é pra sempre, pois a minha ainda não sarou.

    Chore a sua dor, mas não fique relembrando a toda hora esses episódios tão tristes. Passou, passou.

    É isso, você tem toda a razão. No seu lugar eu também faria o mesmo: em respeito a você e à memória de sua mãe, tire do post essas fotos onde ela aparece transformada pela doença. Deixe só as que lhe dão apenas saudade. É assim que faço e tem dado certo. Tenho saudade dos tempos em que meus avós estavam velhos, mas com saúde. Não quero nem lembrar da época das doenças. Fiz a minha parte, me dou esse direito.
    Beijos

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  7. Muito lindo o texto e muito triste tb. Sua mae fazia aniversario no mesmo dia q meu pai faz. Penso q o Leblon ficou ainda mais bonito depois q li esse texto. Força, amiga! Eu acredito piamente q um dia encontraremos nossas pessoas queridas. Nao sei onde, nem como, nem quando...mas é uma certeza interna. Como vc mesma disse: missao cumprida.
    Beijos

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  8. Ah, Luci, estou em lágrimas com esse texto. Imagino que acompanhar esse sofrimento da sua mãe de perto, foi muito doloroso.
    Deixo aqui um abraço carinhoso pra você!

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  9. Olá, estou aqui pela primeira vez e lendo seu texto pude entender um pouco do que você está sentindo, também tenho meu pai com 89 anos acamado e não é fácil. Mas sabe, Deus é tão maravilhoso que nos dá forças para suportarmos nossa tarefa e bem cumpri-la.
    Estarei de volta por aqui, um abraço.

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  10. Luci,

    não tenho condições de comentar aqui, depois vc entenderá.

    Sua mãe era muito bonita e vc é bastante parecida com ela.

    Que Deus te proteja sempre!

    Beijo,

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  11. Luci,

    Como você se parece com sua mãe!!! Como dói ver uma pessoa que amamos definhar e sentirmos impotente. Vi meu pai de esvair e aindo vendo-o em cima de uma cama sem controle físico algum de seu corpo, magro como uma folha, ainda sim achava que ele ficaria bom. Acho que foi um modo de defesa subconsciente, sei lá.
    Neste meio tempo, minha mãe cuidou de meu pai. Lavou suas roupas sujas, pois ele não controlava mais suas funções biológicas. Quando teve que usar as fraldas geriátricas ele morreu mais um pouquinho por dentro. E minha mãe ali, nem sei como conseguiu suportar tudo. Eu com bebê recém nascido em casa, mal podia ajudá-la. Enfim ele se foi e assim como você minha mãe se sente em paz pois tem a certeza de que fez tudo, tudo que era possível para ajudá-lo, cuidá-lo.
    Difícil no seu caso, sua mãe chegar a um ponto de não reconhecer os familiares e vocês não reconhecerem nela quem um dia ela foi. Difícil também para mim, foi ver meu pai lúcido até o último minuto e nos dizendo todos os dias que gostaria de morrer.
    Realmente quando alguém na família fica gravemente doente, a família inteira adoece e sofre junto.

    Bjs no seu coração.

    Elaine

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  12. Tantas saudades dela, que me ensinou a gostar de ler...

    Ela está em paz, isso é que é o mais importante ^^

    Beijocas!

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  13. Luci,
    Muito bonito seu depoimento.
    Li quase sem respirar, e fiquei arrepiada com essa história tão real, cheia de sofrimento e de amor.
    Há alguns meses estou passando por situação semelhante, com minha mãe praticamente na cama, sem qualquer comunicação (a não ser pelo olhar).
    Tudo é muito doído.
    Beijo.

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