27 de mai de 2011

o afogado mais bonito do mundo

post publicado inicialmente em 09/02/08

Acabei de reler esse texto e achei que vocês gostariam de ler e vim postar aqui. Tentei encontrar o conto completo do Gabriel, mas não consegui. Boa leitura! Ah se alguém tiver o conto completo e puder me mandar, agradeço.

O afogado mais bonito do mundo.
RUBEM ALVES

"SOU ANTROPÓFAGO. DEVORO livros. Quem me ensinou foi Murilo Mendes: livros são feitos com a carne e o sangue dos que os escreveram. Os hábitos de antropófago determinam a maneira como escolho livros. Só leio livros escritos com sangue. Depois que os devoro, deixam de pertencer ao autor. São meus porque circulam na minha carne e no meu sangue. É o caso do conto "O Afogado Mais Bonito do Mundo", de Gabriel GarcíaMárquez. Ele escreveu. Eu li e devorei. Agora é meu. Eu o reconto.
É sobre uma vila de pescadores perdida em nenhum lugar, o enfado misturado com o ar, cada novo dia já nascendo velho, as mesmas palavras ocas, osmesmos gestos vazios, os mesmos corpos opacos, a excitação do amor sendoalgo de que ninguém mais se lembrava...
Aconteceu que, num dia como todos os outros, um menino viu uma forma estranha flutuando longe no mar. E ele gritou. Todos correram. Num lugar como aquele até uma forma estranha é motivo de festa. E ali ficaram na praia, olhando, esperando. Até que o mar, sem pressa, trouxe a coisa e a colocou na areia, para o desapontamento de todos: era um homem morto. Todos os homens mortos são parecidos porque há apenas uma coisa a se fazer com eles: enterrar. E, naquela vila, o costume era que as mulheres preparassem os mortos para o sepultamento. Assim, carregaram o cadáver para uma casa, as mulheres dentro, os homens fora. E o silêncio era grande enquanto o limpavam das algas e liquens, mortalhas verdes do mar. Mas, repentinamente, uma voz quebrou o silêncio. Uma mulher balbuciou:"Se ele tivesse vivido entre nós, ele teria de ter curvado a cabeça sempre ao entrar em nossas casas. Ele é muito alto...".Todas as mulheres, sérias e silenciosas, fizeram sim com a cabeça.
De novo o silêncio foi profundo, até que uma outra voz foi ouvida. Outra mulher..."Fico pensando em como teria sido a sua voz... Como o sussurro da brisa?
Como o trovão das ondas? Será que ele conhecia aquela palavra secreta que, quando pronunciada, faz com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo?" E elas sorriram e olharam umas para as outras. De novo o silêncio. E, de novo, a voz de outra mulher... "Essas mãos.... Como são grandes! Que será que fizeram? Brincaram com crianças? Navegaram mares? Travaram batalhas? Construíram casas? Essas mãos: será que elas sabiam deslizar sobre o rosto de uma mulher, será que elas sabiam abraçar e acariciar o seu corpo?" Aí todas elas riram que riram, suas faces vermelhas, e se surpreenderam ao perceber que o enterro estava se transformando numa ressurreição: um movimento nas suas carnes, sonhos esquecidos, que pensavam mortos, retornavam, cinzas virando fogo, desejos proibidos aparecendo na superfície de sua pele, os corpos vivos de novo e os rostos opacos brilhando com a luz da alegria.
Os maridos, de fora, observavam o que estava acontecendo e ficaram com ciúmes do afogado, ao perceberem que um morto tinha um poder que eles mesmos não tinham mais. E pensaram nos sonhos que nunca haviam tido, nos poemas que nunca haviam escrito, nos mares que nunca tinham navegado, nas mulheres que nunca haviam desejado.
A história termina dizendo que finalmente enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma.

12 comentários:

  1. Olá, querida! Saudades!!!
    Está tudo bem, mas eu ainda estou numa correria danada, e meio cansada... Virei tia véia mesmo, não tem jeito... :0(
    Passei só pra dizer oi!
    Espero que tudo esteja ótimo com você!
    Mil beijos!!!!

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  2. Tb tou com saudades de vc e nossos papos!!!

    bjusssss

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  3. Tem muita gente viva, morta por dentro, por isso continue firme na realização do seu sonho e viva cada momento.

    Gilson

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  4. obrigada lindão!!!

    e porque vc está postando de anônimo? hehehe marca nome/URL e escreve seu nome, eles mudaram umas configurações

    bjuss

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  5. Oi Luci,boa tarde !!!
    Este é o tipo do conto que nos deixa muito a refletir...me deixou e muito...!!!!
    "os mortos vivos"...conheço tantas pessoas assim!
    Gostei!
    Tenha um lindo,divino e maravilhoso fim de semana.
    saúde e beijo.

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  6. Oi, Luci, boa tarde!

    Não tenho o conto :(
    Não compartilho da opinião do Rubem Alves, prefiro materiais menos dramáticos do que o sangue, rs, metaforicamente, é claro.

    Luci, estou comentando como anônima por causa do bug no blogger, tá uma maluquice.

    Beijo, inté,

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  7. Eu gostei do conto. E quantas vezes precisamos apenas de um empurrãozinho para que nos lembremos que sensações há muito esquecidas?
    Beijos, bom findi =*

    @morenalilica

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  8. Por que o que elas imaginam sobre o morto excita? O desconhecido excita; os maridos já conhecem... será mesmo? Cada pessoa é um universo. Às vezes só falta ânimo de desbravá-lo.
    Ótimo texto.
    Paz e ternura...

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  9. Com certeza vou procurar o original do Gabriel Garcia Marquez!Fascinante!

    Beijo!

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  10. Parabéns pelo post, equipe brigadeiro porto alegre, Atelier Là Piu Bella Donna.

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  11. Muito proveitoso, adoramos!
    obrigado por compartilhar conosco.

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